Essa semana acontece o Met Gala 2026, abrindo a exposição do Costume Institute no Metropolitan Museum of Art.
O Met Gala é um evento beneficente organizado pela Anna Wintour há décadas para arrecadar fundos para o Costume Institute, e é dela a responsabilidade de aprovar quem vai ser convidado (ou vetar alguém) e o que (qual marca) essa pessoa vai vestir, para garantir que o tema e o dress code da festa sejam obedecidos.
Essa semana lá no Twitter (me nego a chamar de X, especialmente por causa do Elon Musk) um monte de gente estava preocupada com o que o Connor Storrie (Heated Rivalry) ia usar, porque quem olha de fora não entende como que as roupas são escolhidas, e principalmente, a diferença entre tema e dress code.
Como consultora de estilo desde 2014, a minha intenção é aumentar o repertório sobre moda e estilo das pessoas que me seguem, e acho que vale a pena falar sobre isso aqui.
Met Gala 2026
O Met Gala é um evento beneficente organizado pelo Metropolitan Museum of Art para arrecadar fundos para o Costume Institute.
O Metropolitan Museum of Art recebe esse evento anualmente porque já legitima a moda como objeto cultural, e esse ano vai literalmente ser o “palco” para um desfile de moda.
É comum a gente ouvir falar do tema de cada ano, mas saber qual o dress code também é importante pra gente entender a narrativa.
Diferença entre tema e dress code
O tema é mais conceitual e orienta a narrativa da mostra que vai ficar meses em cartaz no museu.

Já o dress code do Met Gala é uma tradução estética do tema — mas não é o tema em si. Assim como o dress code de uma empresa ou outras festas, é o que vai orientar como os convidados devem se vestir, na prática. O dress code é o espetáculo em si, é o que a gente vê as pessoas vestindo enquanto sobem a escadaria.
No Met Gala de 2023, por exemplo, o tema foi “Karl Lagerfeld: A Line of Beauty”, que era uma homenagem ao estilista depois da sua morte, e o dress code era usar peças que ele tinha feito, roupas em preto e branco (as cores que ele usava e usava nas suas coleções) e peças que lembrassem do seu estilo.

Mas, nem todo mundo obedeceu ao dress code, para protestar contra as várias polêmicas envolvendo o estilista. A Viola Davis, por exemplo, usou rosa, que era uma cor que ele odiava!!

Eu falei sobre as polêmicas dele e os looks que as celebridades usaram no MET Gala 2023 para criticar o Karl Lagerfeld nesse outro texto. Vale a pena ler!
Quem escolhe o que as celebridades vão vestir?
O que a gente vê as pessoas vestindo no Met Gala é o resultado do trabalho feito por várias pessoas: O estilista vai convidar alguém que esteja alinhado com a imagem da marca, e a celebridade pode dar algumas sugestões (dependendo do contrato, claro!), porque a pessoa vai representar a imagem da marca, mas essa roupa / figurino também deve estar alinhado com a sua estratégia de imagem pessoal.
Além disso, a Anna Wintour aprova (ou influencia fortemente) todos os looks, e às vezes é difícil agradar o designer, o stylist, a Anna Wintour e a celebridade ao mesmo tempo.
O que acontece, na maioria das vezes, é a celebridade ser sacrificada, tendo dificuldade para andar, subir a escada ou até mesmo para respirar!

Impossível não lembrar da dieta extrema que a Kim Kardashian seguiu em 2022 para conseguir entrar no vestido histórico da Marilyn Monroe (e mesmo assim danificou o vestido, forçando pra caber), da Cardi B ou da Zendaya precisando de uma equipe para ajudar na sua locomoção, por causa da estrutura das roupas que costuma usar.

Detalhe do vestido histórico da Marilyn Monroe danificado:

É um convite tão limitado e desejado que aparecer no tapete vermelho (mesmo que nessas condições) confere status e é sempre uma boa exposição para a celebridade.
Ashley Graham – Met Gala 2016
No Met Gala de 2016 a Ashley Graham (uma das modelos plus size de maior visibilidade mundial e uma figura importante no movimento body-positive) não pôde comparecer porque não conseguiu encontrar um designer disposto a vestir ela para o evento.
A gente sabe como a moda está diretamente ligada às pressões estéticas femininas, e os designers fazem essa “roupa de amostra” em um tamanho muito específico – geralmente bem pequenos, para vestirem mulheres bem magras.
Foi a H&M que levou ela para o Met Gala alguns no ano seguinte, com um vestido que não parecia “roupa de loja de departamento”.

Isso mostra que nem sempre o privilégio do convite é o suficiente para desfilar por alguns (poucos) minutos na frente das câmeras representando a ideia do designer se você não tiver um corpo ou uma imagem pessoal que agrade a eles. O corpo da celebridade vira a vitrine da marca.
Tema Met Gala 2026
O tema do Met Gala 2026 é “Costume Art” e a primeira coisa que a gente precisa saber sobre o que as pessoas vão vestir é que não vai ser uma roupa que alguém usaria no dia-a-dia, já que é um tema que fala de figurino / personagem (de cinema, teatro, performance, ópera, etc), que se aproxima muito do que a gente pode considerar como arte e a moda como encenação.
Isso também já acaba com a preocupação da maioria das fãs do Connor Storrie, que não querem que ele apareça no tapete vermelho usando “um terno sem graça”. Eu particularmente não acho sem graça os looks que ele usa, mesmo os looks com terno.

Todo mundo ali vai estar quase que performando ao vivo, como se estivesse no palco.
Roupa como figurino
Muitas vezes a roupa do personagem, a roupa usada no palco não é feita pensada no conforto do artista, e é comum que essa roupa tensione o corpo durante uma performance artística.
Mas se a moda é arte, e na moda não vale tudo para caber numa roupa (ou vira uma futilidade), porque na arte esse sacrifício é aceitável?
Eu estou feliz que o Connor Storrie tenha sido convidado, porque é uma boa vitrine e um grande reconhecimento do seu talento, e o tema é a cara dele, que vem do teatro.
O meu medo não é ele aparecer usando um terno sem graça. O meu medo é ele aparecer usando algo que esteja o machucando enquanto ele mantém aquele sorriso lindo no rosto.