contribuições da preta gil no feminismo e na moda

O feminismo da Preta Gil

A Preta Gil morreu no último domingo (dia 20 de julho de 2025) e isso me afetou de várias formas, já que a minha mãe também morreu com câncer em 2000, aos 49 anos (a Preta Gil morreu aos 50), e ambas lutaram muito para serem vistas como mulheres depois de os seus corpos terem sido mutilados pelas cirurgias e pela doença.

O impacto da grandeza da luta da minha mãe e da força dela foi visto por poucas pessoas, mas sempre que eu posso, eu conto sobre ela para clientes, seguidoras e amigas – e hoje eu vou falar dela de novo, usando o que eu vi a Preta Gil fazer pelas mulheres, muito antes do câncer dela.

A autoestima da Preta Gil

O corpo da Preta Gil sempre foi pauta de revistas, sites e perfis de fofoca, e muitas mulheres puderam aprender com ela a amar um corpo que não era amado pela sociedade em geral – e muito antes de o “empoderamento feminino” ser uma pauta. Ela estava nua na capa e no encarte do CD “Preta-à-Porter”, que ela lançou em 2003, já pra mostrar a mulher forte e corajosa que ela era.

CD "Preta-à-Porter" Preta Gil

Enquanto estava lutando contra o câncer, Preta Gil continuou recebendo críticas em relação ao seu corpo, porque ela não deixou de usar biquíni para ir à praia, mesmo com as cicatrizes das cirurgias e com a bolsa da colostomia.

preta gil colostomia

Eu tinha 9 anos quando a minha mãe retirou a mama por causa do câncer, e assim como a Preta Gil, ela também era muito vaidosa. Lembro muito claramente de quando ela comprou o primeiro sutiã para mastectomizadas, que é adaptado para a prótese móvel (minha mãe nunca colocou silicone para a reconstrução da mama, porque ela tinha horror de cirurgia) e deixou de usar blusinhas de alça.

sutiã para mastectomizadas

Ela também amava praia, e passou a tomar sol só em casa, porque o olhar alheio sempre foi muito cruel. Lembrar da dor da minha mãe me faz admirar ainda mais a força da Preta Gil, e ter ainda mais raiva de pessoas que acham pouco uma mulher com câncer ter que se preocupar com a recuperação do seu corpo, e “ter que” se preocupar também com a beleza dele.

E não dá pra falar da crueldade das pessoas e da força da Preta Gil sem citar o ex-marido dela, né? Trair e abandonar alguém que precisa de amor e apoio, causando ainda mais dor e sofrimento a uma mulher nesse momento é algo imperdoável.

A relação da Preta Gil com a moda

Em 2021, quando lançou uma coleção de moda praia junto com a C&A que atendia mulheres que usavam até o manequim 4G, ela disse que soube o significado da frase “meu corpo é político” antes mesmo de saber que lutar contra a gordofobia era uma bandeira (já que era parte da sua vida há mais de 20 anos).

Ela disse que sempre gostou de mostrar o corpo, e que se rendeu às pressões estéticas várias vezes, e que era incentivava por saber que um monte de mulheres se via nela e se encorajava ao ver ela fazendo o que as pessoas diziam que uma mulher gorda não poderia fazer. Que ciclo bonito, né?

relação da Preta Gil com a moda

Uma das coisas que eu não abro mão de falar nos meus textos e nas consultorias é que se vestir com liberdade é um ato de resistência pra toda mulher (especialmente nessa onda de conservadorismo), mas especialmente para mulheres gordas – e a Preta Gil foi uma voz muito importante nesse assunto!

coleção moda praia Preta Gil

Ser uma mulher gorda que queria se mostrar e ser vista no lugar de quem ia assinar uma coleção de moda praia pensando nas demandas de outras mulheres gordas também foi importante. Ela entendia as mulheres que ia comprar aquelas peças, e sabia que mulheres gordas também podem usar peças mais ousadas e que vão realçar a beleza delas.

Em 2023, quando achou que tinha se libertado do câncer (minha mãe também passou por isso algumas vezes) Preta Gil estreou na passarela do São Paulo Fashion Week, desfilando para a marca The Paradise, que é uma marca que vende tudo que dizem que gorda não pode vestir: estampas, brilhos, cores, decotes e fendas – já com a bolsa de colostomia!

Preta Gil The Paradise SPFW 2023

Além de ajudar mulheres gordas, ela também usou a sua influência para ajudar pessoas negras que trabalham na moda também, usando e divulgando marcas pequenas em capas, ensaios fotográficos e desfiles, ajudando a tornar a moda mais inclusiva, diversa e representativa. Nesse texto da Vogue eles mostram os 10 designers negros que fizeram a produção dos looks que ela usou na capa da revista em 2022.

Preta Gil morreu no dia do amigo (20 de julho) e a sua despedida final vai ser no dia da mulher negra (dia 25 de julho), e isso é lindo!

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Priscila Citera

Apaixonada por pessoas e por moda, resolvi unir a Psicologia e 12 anos de experiência em recursos humanos com a formação em Consultoria de Estilo pela Oficina de Estilo, e desde 2014 ajudo mulheres e homens desse mundão todo a transformarem personalidade em looks e roupas em representação da personalidade, sem que eles precisem gastar muito!