Rio Fashion Week 2026

Rio Fashion Week 2026: Expectativa x Realidade

Eu sou carioca apaixonada pelo Rio de Janeiro, e consultora de estilo apaixonada por moda nacional, e por isso não podia ficar de fora da Rio Fashion Week, que voltou a acontecer depois de 12 anos!!

O line-up inteiro estava incrível, mas como eu não conseguiria ir todos os dias (a Rio Fashion Week é do dia 14 ao dia 18 de abril), eu precisei escolher que marca eu mais queria ver.

Comprei o ingresso para ontem, dia 15 de abril, para assistir ao desfile da marca ALUF, e ganhei convite da Normando para assistir ao desfile deles também, e a mistura dessas duas marcas me proporcionou uma noite incrível! Mas, ainda assim, rolou uma diferença entre a minha expectativa e a realidade em alguns pontos, que eu vou contar nesse texto.

Rio Fashion Week não é sobre roupa

Eu sempre falo que o meu trabalho na consultoria de estilo não é sobre roupa, e também não foi por causa de roupa (ou para ver roupa) que eu fui à Rio Fashion Week.

Quem acompanha o meu trabalho (aqui ou lá no Instagram) sabe que eu estou sempre apoiando a moda nacional, o consumo consciente e a sustentabilidade na moda. A maioria das pessoas que me segue também sabe que eu sou psicóloga, e enquanto uma das marcas é bem relacionada com a psicologia, a outra apresenta muita coisa de brasilidade e sustentabilidade!

As duas marcas falaram sobre o tempo, e apesar de o Rio Fashion Week não ter um tema determinado (como acontece com o MET GALA), o fato de o evento estar voltando para o Rio de Janeiro depois de 12 anos e a moda estar cada vez mais fast já inspiram o suficiente, né?

desfile Aluf e Normando Rio Fashion Week 2026

A moda da Aluf

Eu escolhi comprar o ingresso para ver o desfile da Aluf porque a minha admiração pela marca vai muito além dos looks que eu ia ver na passarela.

A marca usa a moda como expressão psíquica, e tem a psiquiatra Nise da Silveira como referência, da roupa como ferramenta para expressar quem a gente é.

Eu fui à uma exposição sobre a Nise da Silveira o CCBB aqui no Rio de Janeiro em 2021 porque ela foi muito importante importante para a psiquiatria no Brasil, e especialmente na luta antimanicomial. Ela recusava práticas violentas como o eletrochoque e o isolamento nos hospitais que trabalhou, enquanto propôs que os pacientes se expressassem através da arte, porque ela sabia que a expressão — especialmente a expressão simbólica — era uma via legítima de existência e elaboração psíquica. Na exposição também tinha várias peças falando sobre roupa, e eu mostrei tudo nesse meu post do instagram:

A Aluf parte da ideia de que vestir também é um processo de expressão interna, quase emocional, onde as roupas são quase um projeto artístico da estilista e idealizadora da marca, Ana Luiza Fernandes.

As peças da Aluf têm volumes arquitetônicos que eu amo e texturas muito específicas, feitas em matéria-prima brasileira e sustentável, e a coleção apresentada no desfile (Diálogos sobre o tempo) tinha tudo isso além de também ter referência na arteterapia!

Aluf Rio Fashion Week 2026

Diálogos sobre o tempo é uma coleção para falar da mulher que corre atrás do tempo, e da mulher que é a deusa desse tempo e controla o seu tempo. Pra falar de ansiedade e de produtividade – enquanto usava som que parecia com as batidas do relógio, mas era um sound healing, uma coisa linda!

Na prática, as roupas da ALUF têm textura de areia (que simboliza o tempo passando na ampulheta), movimento da areia dançando no vento e shape de ampulheta, além de trazer tecidos desgastados e pérolas como exemplos do passar do tempo a imagem de relógios nas bolsas, a imagem literal do passar do tempo.

Aluf Rio Fashion Week 2026

Numa época onde a moda está cada vez mais acelerada, mais fast fashion, uma marca slow fashion falar sobre coisas que precisam de tempo para acontecer foi realmente muito bonito! Foi o jeito da ALUF falar sobre o tempo, olhando pra dentro!

Estilo e autoconhecimento também demandam tempo, né? Os resultados da terapia também!

A moda da Normando

O meu carinho pela Normando começou quando eu descobri que a marca nasceu em Belém do Pará, onde eu morei com os meus pais em 1990 e tenho boas lembranças, continou por causa do estilo da marca e porque também usa matéria-prima brasileira e tem a cara de um Brasil que o mundo todo conhece: A Amazônia.

Usando látex amazônico como alternativa ao couro e sementes como a jarina para substituir outros materiais animais, a marca também é sustentável e mostra que a alfaiataria brasileira não perde em nada para a alfaiataria europeia que muita gente ainda valoriza.

Normando RioFW

A coleção “Natureza morta” também falava sobre o tempo, de uma forma diferente do tempo trazido pela ALUF. Na Normando, o tempo é visto na transformação da natureza morta em roupas (com volumes vegetais, folhas, raízes e fibras incorporadas nas peças e referência à decomposição, que é a matéria sofrendo a transformação do tempo). É a marca falando do tempo olhando pra fora, pro mundo.

Normando RioFW

O tempo da Normando é material, é biológico e histórico, e aparece na transformação e no reaproveitamento dessa matéria. Memória e identidade também podem ser relacionados com o tempo – roupa, moda e estilo pessoal também!

Como “ler” um desfile de moda

A moda é uma das ferramentas do meu trabalho como consultora de estilo, e desfiles de moda não fazem parte da minha rotina de estudos para aperfeiçoamento profissional, mas os meus 5 centavos sobre isso é que eu sei que existe uma parte mais poética e subjetiva da coleção (que é o significado, a história que a coleção conta através das roupas) e a tradução dessa história através desses símbolos mais explícitos, que vão contar essa história visualmente.

moda nacional - Rio Fashion Week 2026

Na Rio Fashion Week as marcas entregaram um material contando um pouco das coleções e do que a gente ia ver na passarela, o que também ajuda a ler o desfile mais facilmente.

Eu escrevi um texto explicando como funcionam as semanas de moda no mundo, porque elas são bem diferentes entre si. Vale a pena ler!

O que eu usei na Rio Fashion Week

É claro que o look do dia também tinha que ser de uma marca nacional, e eu escolhi ir com um vestido da Farm, uma marca carioca que conseguiu construir uma linguagem visual reconhecível, profundamente associada ao Rio de Janeiro, e ainda assim ser desejada globalmente.

A Farm é colorida e estampada e era exatamente como eu queria parecer num dia de outono, onde a maioria das pessoas escolhe peças mais neutras e escuras.

A gente ainda consome muita referência de fora, mas eventos como esse são fundamentais pra fortalecer a moda brasileira, dar visibilidade pra quem cria aqui e valorizar narrativas que nascem no nosso próprio contexto, e eu gosto da ideia de a Farm ser a cara do Rio de Janeiro no exterior!

look Farm - Rio Fashion Week 2026

A escolha por um vestido (comprado em brechó) também passa pela ideia de não passar despercebida, já que a calça comprida é a escolha mais óbvia nos dias mais fresquinhos.

Eu mostrei mais do look (e de tudo que eu vi nesse dia) em três posts lá no meu instagram. Me segue lá pra ver isso e mais sobre o meu ponto de vista sobre moda e estilo!

Expectativa x Realidade do Rio Fashion Week 2026

A realidade da Rio Fashion Week 2026 foi coerente com muitas das minhas expectativas. Tinha muita gente bonita e estilosa (estilos diferentes, mostrando personalidade) e um trabalho incrível das marcas, com peças incríveis, que representavam tanto o estilo das marcas quanto a moda brasileira.

Duas coisas que incomodaram muito (e eu espero que tenha sido erro de primeiro dia de evento): muito atraso dos desfiles (as duas marcas entraram com 1:30h de atraso) e muita fila pra tudo. Não é culpa das marcas e nem da moda, mas não é o tipo de coisa que combina com um evento desse tamanho e importância, né?

Também me incomodou muito a falta de diversidade de corpos na passarela, um problema que não é só das marcas que eu vi e nem só das marcas brasileiras. Infelizmente é um problema mundial, e em 2026 a quantidade de corpos gordos nas passarelas das semanas de moda tem diminuído drasticamente!

Mas a expectativa mais diferente da realidade (que provavelmente foi culpa da minha inexperiência com desfiles de moda) é o tempo que dura cada desfile – que não chegou a 30 minutos! Mas na mesma hora que eu reclamei mentalmente por esperar 1:30h pra ver 20 minutos de desfile, eu lembrei da quantidade de gente envolvida no processo das roupas e no tempo que demora para que elas fiquem prontas, e que elas só são vistas por menos de um minuto, enquanto os modelos atravessavam a passarela. Tempo é mesmo relativo, né?

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Priscila Citera

Apaixonada por pessoas e por moda, resolvi unir a Psicologia e 12 anos de experiência em recursos humanos com a formação em Consultoria de Estilo pela Oficina de Estilo, e desde 2014 ajudo mulheres e homens desse mundão todo a transformarem personalidade em looks e roupas em representação da personalidade, sem que eles precisem gastar muito!