Eu sou consultora de estilo desde 2014 e se tem uma expressão que eu não aguento mais ouvir ou ler nas redes sociais é que alguém tem bom gosto ou que algo é de bom gosto ou não na moda.
Felizmente nunca nenhuma cliente me procurou querendo “aprender a ter bom gosto”, mas isso é algo que pode perturbar a nossa paz e influenciar na nossa autoestima e na nossa autoimagem, e por isso trouxe esse assunto pra cá.
Ter bom gosto não é neutro
No livro “A Distinção: crítica social do julgamento” (La Distinction: Critique sociale du jugement, uma das obras mais importantes do sociólogo francês Pierre Bourdieu), publicado em 1979, a gente aprende que o gosto (em arte, música, comida, moda, etc.) não é algo puramente individual, mas profundamente influenciado pela classe social e pelo capital cultural das pessoas.
Isso significa que o que consideramos “bom gosto”, bonito, chique ou elegante serve para distinguir grupos sociais: ele separa, hierarquiza e até exclui as pessoas de acordo com a classe social, raça, dia-a-dia e repertório cultural.
“O gosto classifica e também classifica quem gosta”
Essa frase revela / reafirma (classifica) a posição social de alguém que gosta de algo. Quando ele diz que o gosto separa e hierarquiza as classes sociais ele está falando sobre o fato de que quem nasce em famílias com alto capital cultural já aprende cedo esses códigos do “bom gosto”. As crianças são expostas a experiências (como viagens, educação e lazer) que vão ajudar essa pessoa a ser classificada como alguém de bom gosto.
E se você, assim como eu, não nasceu em uma família rica, mora ou morou em um lugar sem muitas opções de lazer e cultura, gasta muito tempo no transporte público para ir e voltar do trabalho por morar longe dos grandes centros empresariais, é mãe solo ou tem crianças para cuidar (mesmo que em um relacionamento) e por isso está sempre cansada demais para fazer outras coisas, esses hábitos formados pelas suas condições sociais e econômicas não ajudam a melhorar o seu capital cultural, e podem influenciar as suas escolhas – incluindo as suas roupas.

É sobre isso que Bordieu se refere quando ele diz que o gosto separa as pessoas e marca fronteiras sociais, ou seja, hierarquiza as pessoas de acordo com a classe social de cada um, valorizando algumas práticas e estilos e vendo outros como inferiores. É daqui que nasce a importância que foi dada à “cara de rica”. Ter cara de rica é como se você automaticamente tivesse bom gosto e sucesso, porque é um “valor” que ninguém (ou quase ninguém) questiona.
Já percebeu que a cara de rica inclui várias coisas ao mesmo tempo? Não é só sobre usar alfaiataria e cores neutras, mas também seguir a dieta da moda, fazer academia, acordar cedo para tomar um café da manhã de hotel, cuidar da pele e do cabelo, fazer os procedimentos cirúrgicos para estar dentro do padrão de beleza atual…
Se você não “cumpre todos esses requisitos”, você não tem cara de rica, você só está usando roupa de alfaiataria em cores neutras. E pra cumprir todos esses requisitos, você precisa ter tempo e dinheiro. Entende? Esse padrão não foi feito pra todo mundo alcançar – foi feito pra deixar todo mundo frustrado mesmo, e manter esse poder simbólico na mão de quem é rico de verdade.

O bom gosto é uma moeda social que ele chama de “poder simbólico”, um poder que abre ou fecha portas, cria oportunidades e dá privilégios para quem já nasceu privilegiado. Por isso todo mundo quer ter bom gosto, porque também não é só sobre estilo pessoal.
Bom gosto e capital cultural podem ser aprendidos
Eu sempre mostro os meus rolés culturais lá no meu Instagram e gosto de dizer que ir à exposições, museus, teatro e shows também ajudam a melhorar o nosso estilo pessoal – justamente porque aumentam o nosso repertório cultural (ou capital cultural, como o Pierre Bourdieu chama).
E quando eu falo de “melhorar o nosso estilo pessoal” eu não estou falando sobre se encaixar no conceito de bom gosto de outra pessoa, e sim sobre você se inspirar em coisas além das roupas – e principalmente além das roupas das outras pessoas!
Ainda segundo Pierre Bourdieu, a gente pode aprender a ter bom gosto e aumentar o nosso capital cultural. Nada disso é natural, ou seja, ninguém nasce com bom gosto ou mal gosto. Esse gosto é desenvolvido, é aprendido, e é importante que você saiba a diferença entre copiar e aprender.
Sabe quando você cola na prova, copiando as respostas de alguém que sabe mais sobre aquele assunto que você? A sua nota não vai dizer que você sabe aquela matéria, que você aprendeu o assunto, assim como copiar o look de alguém que tem bom gosto não vai te classificar como alguém com bom gosto porque aquilo não é seu – a não ser que você tenha aprendido alguma coisa sobre aquilo.
E é por isso que eu não compartilho os meus looks só para as pessoas copiarem. Sempre falo sobre a ideia do look pra te fazer pensar sobre aquilo e aprender alguma coisa. E também é por isso que não faz sentido você fazer consultoria de estilo com alguém só porque você gosta do estilo pessoal dela (ou acha que ela tem bom gosto).
Consultoria de estilo e bom gosto
Se você me segue lá no instagram ou costuma ler os meus textos aqui no blog, sabe que eu não uso os sete estilos universais no meu trabalho e não concordo com essa ideia de padrão universal. Essa ideia de bom gosto é definida pelas classes dominantes justamente para que essa hierarquia possa acontecer.
Isso significa que você pode ter bom gosto mesmo não sendo uma pessoa rica, e o máximo que vai acontecer se o seu bom gosto não for o mesmo que a classe dominante considera como bom gosto é eles não te classificarem como igual a eles. Isso é importante pra você? Você se veste para ter esse reconhecimento?
Eu sempre falo que a consultoria de estilo é uma das formas de você ganhar repertório, e isso vai, consequentemente, melhorar o seu “gosto” para moda. Mas, de novo, é importante lembrar que essa é uma trajetória pessoal e única pra cada pessoa. Por isso eu não acredito em regrinhas que funcionam para todo mundo ou nos conceitos de certo e errado generalizados.

Também não quero que você me veja como alguém superior a você só porque sei mais sobre tecido, cor, modelagem, caimento e moda que você – e nem te fazer dependente de mim e te prender ao meu conteúdo pra ter o seu engajamento pra sempre.
Se você chegou a esse texto porque quer aprender a ter bom gosto, entende que a consultoria de estilo pode te ajudar nisso, e se conecta com a minha forma de pensar e trabalhar, me manda uma mensagem por aqui que eu te ajudo nisso!