Eu lembro exatamente quando foi a primeira vez que eu vi um look “Ugly chic” na minha vida. Ela era a primeira namorada do meu pai depois da morte da minha mãe, em 2002. Eu odiava aquela situação, e queria falar mal dos looks “esquisitos” dela, mas eu amava! Beijo, Claudinha!
O ugly chic é um conceito na moda que mistura peças, formas ou elementos considerados feios (ou, pelo menos, não tradicionalmente bonitos) com elementos sofisticados e elegantes, criando um resultado que é intencionalmente estranho, mas estiloso. É uma estética que desafia os padrões tradicionais de beleza e luxo, transformando o “feio” em algo desejável.
É como se dissesse: “Eu sei que isso é esquisito, mas é exatamente por isso que é incrível.” E também é por isso que eu gostava dos looks da Claudinha. Em 2002 eu ainda não sabia disso, mas agora eu sei!
O conceito “Ugly chic”
O termo começou a ganhar força no final dos anos 2010, impulsionado por marcas como Balenciaga (sob Demna Gvasalia), Prada, que sempre brincou com o conceito de “feio elegante” (Miuccia Prada adora tensionar o que é belo x feio) e Gucci na era Alessandro Michele, com aquele maximalismo caótico.
Historicamente, a moda sempre flertou com o estranho, mas o ugly chic surge como uma resposta ao excesso de perfeição do Instagram, onde tudo parecia polido, belo e “instagramável”, como uma forma de se rebelar contra esse padrão.
Mais do que uma estética, o ugly chic é uma declaração política e cultural. Veja porque:
- Questiona o que é considerado bonito ou de “bom gosto”
- Ironiza a obsessão pelo luxo tradicional — muitas vezes peças ugly chic custam caríssimo, mas parecem algo que você acharia no fundo de um bazar de igreja
- Expressa autenticidade e inteligência fashion, porque só quem entende de moda reconhece as referências e percebe que o “feio” foi uma escolha, não um erro. Já contei aqui que a palavra que define o estilo é intenção, né? É disso que estamos falando!
- Funciona como uma forma de subverter o consumo aspiracional, transformando o imperfeito em algo desejável

E é por causa dessa característica mais questionadora e autêntica que o Ugly chic se contrapõe ao conservadorismo na moda, que é uma coisa mais tradicional e dentro da caixinha, feito de looks que misturam peças da mesma caixinha, pra “ter mais harmonia”!
Vale lembrar que a harmonia é quase sinônimo de beleza, e por isso que o que é desarmônico (como essas combinações ou elementos) é considerado feio.
Elementos típicos do Ugly chic
O ugly chic se apoia em contradições, tanto visuais quanto simbólicas, pra trazer esse aspecto de caos e desarmonia. Alguns exemplos de elementos que a gente encontra nesses looks:
- Sapatos considerados feios, como Crocs, Birkenstocks ou Dad sneakers (tênis volumosos, estilo anos 90) e Sandálias ortopédicas
- Óculos excêntricos ou em formatos antiquados
- Cores e estampas “não harmoniosas”, em cores como marrons, mostardas, verdes oliva, combinados de forma propositalmente esquisita
- Peças vintage que parecem ultrapassadas, mas usadas de maneira irônica
- Formas exageradas ou desproporcionais, como ombros muito largos ou calças oversized
Looks ugly chic na prática
Algumas famosas como a Rihanna, Tilda Swinton e Bella Hadid já desfilaram alguns looks considerados “ugly chic”. No cinema, a personagem Carrie Bradshaw (ela mesmo!!) é um ícone do estranhamento e da mistura de peças improváveis que dão certo no final!

Você consegue imaginar a Carrie usando uma bolsa Balenciaga que parece um saco de feira, mas custa milhares de reais, looks grifados em combinações de cores “erradas”, como roxo com marrom e laranja, vestidos com babados exagerados, que parecem “roupa de vó”, ou outras peças vintage com um salto altíssimo e moderno.
Quem acompanha o meu trabalho como consultora de estilo lá no instagram sabe que eu não gosto de regrinhas porque eu acredito muito mais no poder da expressão de quem a gente é, mesmo que seja uma bagunça aos olhos dos outros! Dizer que alguém precisa ser elegante ou ter um blazer preto no guarda-roupas é meio castrador (e talvez por isso, conservador!).